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Manta de retalhos. Autor: Fernando Roldão

Emaranhado, miscelânea ou colcha de retalhos são, como os próprios nomes indicam, são um conjunto de bocados ou pedaços de vários tipos de tecidos ou similares, que unidos se transformam numa única peça, heterogénea, talvez não muito bonita, mas com algumas características que a tornam diferente.

Desde a minha meninice que eu via fazer essas obras de arte popular, que poderiam ter como origem, a falta de meios para comprar peças novas ou então resultado de uma política de poupança ou reciclagem, como hoje se chama.

Noutros tempos a maioria das mulheres, ficavam pelas lides domésticas, contribuindo assim para uma economia caseira mais equilibrada, onde iam tendo tempo para costurar as suas mantas ou colchas de retalho, misto de um sistema ecológico e economicamente sustentável.

Ainda sou do tempo em que se viravam os casacos ou as golas das camisas, para permitir uma maior longevidade às ditas cujas, contribuindo, também, para uma melhoria da economia doméstica.

Algumas mentes já estarão a construir ideias de que isso era um reflexo da pobreza em que se vivia, não deixando de ser em parte verdade, mas também era uma forma de ocupar o tempo e poupar algum dinheiro, em tempo de vacas magras.

Conheci muitas donas de casa que tinham um orçamento equilibrado, vivendo com algum conforto, mas nem por isso deixavam de produzir as suas mantas de retalho, costurar as suas lãs e tecer colchas de renda, verdadeiras obras de arte.

Hoje em dia é inimaginável, para a maioria da população, ter a sua própria confecção, devido ao aparecimento do pronto-a-vestir e também à falta de tempo para estas velharias.

Contudo o termo manta de retalhos, hoje em dia é aplicado em sentido depreciativo, significando que o todo não é homogéneo e de fraca qualidade, como que um aproveitamento das sobras ou restos, de um todo que já não o é.

Dez dias após as eleições, tenho que chegar à conclusão de não há em Portugal, uma peça única, bonita e de boa qualidade.

Se antes das mesmas já era difícil assegurar uma peça única, de razoável qualidade que permitisse olhar para o país como um todo, agora a época das mantas de retalho voltou a estar na moda, traduzindo a desunião que existe em 10 milhões de portugueses, em que um pedaço de pano, a maioria das vezes de fraca qualidade, possa representar um sentido de união, colectivismo salutar e que apesar de tudo, possa ser uma bonita manta de retalhos.

Desde 1910, tempo da implantação da republica, em que as mantas de retalho foram sempre um denominador comum, em que cada grupo, queria impor os seus retalhos, recusando junções com outros retalhos, mesmo sabendo que são de boa ou pelo menos de razoável qualidade.

Atraso intelectual, cultural e anti patriótico, que tem contribuído para o atraso deste país em relação a outros, porque mais vale uma boa manta de retalhos, bem costurada, com excelentes pedaços de pano, do que uma manta única, sem qualidade, amorfa, repleta de buracos carunchosos, que tão pouco tempo durou, não agasalhou e antes pelo contrário, evidenciou a péssima qualidade dos artífices que a fabricaram.

Estamos perante mais uma enorme manta de retalhos, “made in Portugal”, onde, infelizmente, estes aparentam muito má qualidade e sem darem garantias de cumprirem a missão para a qual foram incumbidos.

  • Não há sentido de estado, não há espírito nacional, nem vontade de colocarem na cama, uma colcha que nos proteja do frio e nos dê esperança de tornar o Inverno menos pesado.
  • Cada partido puxa a brasa para a sua sardinha, quando o seu dever, seria fazer um bom braseiro para que cada um pudesse assar a sua sardinha e que ,por este andar, daqui a pouco tempo, nem brasas, nem sardinhas.

Incrivelmente ainda não se costurou a manta de retalhas, já andam algumas minorias a manifestar a sua ignorância, a sua falta de patriotismo, reclamando de tudo e de todos, esquecendo-se que a liberdade que tanto apregoam não passa de uma figura de estilo, sem sentido prático, sem noção da realidade, manifestando, com exuberância, a sua apetência para a ditadura, censura e totalitarismo.

Faço um apelo a todos os retalhos, a que alguém fez chegar este pais, para que esqueçam panos maioritários e se unam numa manta de retalhos, bem cosida, aproveitando o que cada um tem de bom, para acabarem com as utopias e se juntem a bem de Portugal.

Só seremos independentes e coesos, quando cada um respeitar as diferenças de cores e o seu papel numa sociedade diversa, onde parcelas diferentes, se encaixem umas nas outras a bem do interesse nacional.

Não há condições para mais eleições, para mais impasses e para mais projectos individuais.

 

 

 

 

 

Autor: Fernando Roldão

Artigo escrito pelo antigo acordo ortográfico

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